BAÚ DO EDU


18/01/2012


 

HISTÓRIAS DE FANTASMAS

 

 

Pouco antes das onze, o papo no boteco enveredou pelas brumas do fantástico, do inexplicável, do sobrenatural. Bom, mais ou menos: o clima era descontraído demais, ao menos em comparação ao de uma sessão espírita ou, sei lá, do exorcismo da Emily Rose. “Não acredito em fantasmas, em anjos ou em Deus”, bradou meu amigo, olhos injetados de birita e com uma determinação vitorbelfortiana de nocautear qualquer Gasparzinho ou espectro não-camarada que por ali passasse.

 

Comedido, desviei-me estrategicamente do tópico “Deus”. Também me abstive de discutir o sexo dos anjos, mas tive que dar razão a ele no que se refere aos fantasmas. É fato: embora funcionem bem no cinema, assombrações só podem ser contos da carochinha.

 

* * *

 

Acompanhe meu raciocínio.

 

O sujeito é advogado, físico nuclear, neurocirurgião ou jornalista. Já defendeu teses importantes, palestrou em universidades e cativou centenas de pessoas com sua lucidez e eloquência (sem mencionar seu senso de humor oportuno e inteligente).

 

Entretanto, ao morrer, a primeira coisa que faz é se cobrir com um lençol, esconder-se no sótão e gritar “Buuu!” para o primeiro infeliz a lhe passar pela frente.

 

Não, não!

 

Isso não faz sentido...

 

 

* * *

 

O leitor pode contra-argumentar, me garantir que “as coisas não são bem assim”. Afinal, Hollywood nos mostrou fantasmas BEM assustadores. Tipo aqueles do “Iluminado”, do “Sexto Sentido” ou do “Chamado”.

 

Lençóis – consideremos a alternativa – poderiam ser os “modelitos” usados por defuntos pouco imaginativos. Digamos, a “gente diferenciada” do limbo, a classe C do plano astral. Pense no Tiririca.

 

Um fantasma de respeito recorreria a truques melhores para arrepiar os cabelos dos vivos. Talvez a Wetta Digital (ou aquele maquiador artístico famoso, Rick Baker) tenha uma filial no além, atendendo aos defuntos abastados que podem pagar por “scary looks” mais legais – machados enterrados na testa, faces parcialmente destruídas e com os ossos se projetando da pele, enfim...

 

É como o Carnaval: quem pode torrar R$ 1.500,00 em uma boa fantasia aparece na Globo. Quem não pode se contenta em curtir a folia usando chinelo de dedo e sacolinha do Carrefour na cabeça.

 

* * *

 

Se o além for mesmo como nos filmes, acho que estão faltando, por lá, alguns programas de motivação. Workshops que auxiliem a alma penada a dar um passo além, a progredir no plano não-corpóreo.

 

Que tremendo desperdício de energia passar a eternidade assustando os vivos! Afinal: os vivos já têm muito com que se assustar. As prestações do financiamento, faturas do cartão com mais de quatro dígitos, inspeção veicular, renovação do seguro do carro, a sucessão da Dilma, a décima terceira edição do Big Brother...

 

É infindável e eclético o purgatório que nos rodeia. Neste cenário, quem tem medo de um espectro macilento a nos observar malevolamente do canto da sala?

 

De fato, em certos noites – em momentos críticos do mês –, periga eu convidar o fantasma pra tomar umas e outras por minha conta. Contanto que ele me ouça e não me julgue.

 

Entende..?

 

* * *

 

Fato é: os fantasmas estão perdendo grandes oportunidades, considerando o que podem fazer quando abandonam os limites da carne, quando se divorciam das leis do tempo e do espaço.

 

Por exemplo: o que um fantasma “macho” ganharia assombrando o meu apartamento, quando poderia espiar a Ana Hickmann pelada no chuveiro sem ser processado por assédio? Sem considerar o cenário: há terreiros mais interessantes para “baixar” que o meu humilde cafofo.

 

Certos, mesmo, estão os fantasmas da Inglaterra ou da Irlanda, que levam um vidão digno da Revista “Caras”. Ok, não há castelos para assombrar no Brasil – entretanto, na qualidade de fantasma, eu já me contentaria em assombrar uma suíte do Maksoud Plaza ou um daqueles hotéis chiquérrimos da Amazônia.

 

* * *

 

Quando estiver “do outro lado” (se é que existe um “outro lado”), também questionarei os métodos de comunicação empregados pelas almas penadas para se comunicar conosco. Sou jornalista. Interessam-me essas coisas. Tenho autoridade para garantir que, embora fosse um bom truque em 1820, recorrer a uma tábua Ouija ou a um copo para formar sentenças muito longas é dos métodos mais ineficazes para se fazer entender.

 

Ainda mais hoje em dia, quando estamos na era do “Facebaak” e do Twitter. Até as TVs, agora, se conectam à Internet. Soletrar sentenças muito extensas (por exemplo, “todos nesta sala morrerão, a começar dos mais descrentes!”) é contraproducente e desgastante. E, do ponto de vista da plateia, uma experiência enfadonha.

 

Assombre-me, me assuste...

 

Mas não me faça perder tempo.

 

E “Buuu” pra você também!

 

Escrito por Eduardo Torelli às 00h17
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12/12/2011


 

COLÉGIO SALETE

 

 

 

Eu estudei no Colégio Salete.

 

Assim como meus primos mais velhos e minha mãe.

 

Minha família não está no ramo de Educação, não senhor!

 

É que o Colégio Salete é uma tradição “imexível” de Santana, bairro da Zona Norte de São Paulo. Antes de fundarem a escola, acho que a única coisa que existia por ali era uma família de mamutes e a Igreja Matriz (que, por sinal, fica na Rua Voluntários da Pátria, a cinco minutos do Colégio Salete).

 

Em Santana, todos os caminhos levam ao Colégio Salete.

 

* * *

 

Fui matriculado à força no Colégio Salete, em 1981. Era um período de transição na trajetória da instituição, que tivera seus momentos de glória em décadas anteriores e que, hoje, voltou a ser uma escola exemplar. Só que as coisas eram bem diferentes em 1981.

 

Oh!

 

Como lamentei não ter sido um bom aluno no primário, quando estudava em uma escola familiar perto dali, de nome “SAA” (sigla para “Solidariedade, Altruísmo e Amor”).  De lá, fui arrebatado por minha colérica mãe (“O dinheiro do seu pai não é capim, moleque!”). E percebi que estava no purgatório já em minha primeira semana no “Saletão”.

 

Tinha gente queimando fumo no pátio e gente trocando socos no portão. Também tinha gente me olhando feio da cantina à fila do banheiro, pois, claro estava, eu era um novato. Meu vizinho de carteira já se barbeava e havia se alistado no exército (eu mencionei que cursava a 5ª série?). Mas pior era o sujeito à minha esquerda: encantado com a gostosíssima professora de Biologia (“Flora” era o seu nome), baixava as calças sob o tampo da carteira e se masturbava descerimoniosamente.

 

Aula de Biologia assim, meu irmão, só no Presídio da Ilha Grande.

 

* * *

 

E os nomes das pessoas, então?

 

Na minha classe, tinha um “Admasterson” e um “Waldsley” (este era o que fazia a barba). Achei que fosse um fenômeno isolado, mas meu irmão – também transferido do SAA para o Saletão e que estava duas séries à minha frente – me garantiu que não era: sua sala também era pródiga em nomes estranhos.

 

“Ontem, conheci um tal de Ben-Hur”, confidenciou-me em voz baixa, na lanchonete, enquanto dividíamos um X-Burguer. “Nunca vi isso, alguém com nome de filme!”

 

Em tempos anteriores ao Politicamente Correto, o bullying comia solto – nada que merecesse muita atenção dos mestres, era só um “ritual de passagem” da adolescência. Eu, por exemplo, fui vítima preferencial de um mulatão grande e burro, Hermínio, que começou a pegar no meu pé quando me flagrou rindo do seu apelido: “Alcione”.  

 

Ao menos, era uma relação honesta e sem surpresas: eu apanhava dia sim, dia também.

 

* * *

 

Entretanto, nenhuma criatura tem maior poder regenerativo que um adolescente – salvo, talvez, as lagartixas.

 

Após um ano cabisbaixo, sonhando voltar ao Colégio SAA e considerando, sem muita convicção, a hipótese do suicídio, fiz amizade com todo mundo – até com os maus elementos, haja vista que Hermínio andou frequentando o meu prédio naquele período.

 

Integrei-me ao cenário e, ali pelo fim da sexta série, ninguém curtia mais o Saletão do que eu. Foi meio decepcionante ver aquela esculhambação toda acabar: duas gestões ultra-conservadoras (a primeira, de 1982 a 1986; e a segunda, iniciada em 1987) recolocaram o colégio nos trilhos. E, hoje, aquela é uma instituição insuspeita, como na época de minha mãe, figurando entre as melhores da Zona Norte da cidade. 

 

* * *

 

Noves fora, fico pensando onde estão meus colegas de ginásio e colegial. Alguns eu só conhecia por apelidos, embora fossem amigos próximos: por exemplo, o “Goober” – assim chamado porque lembrava um personagem de desenho animado (estava sempre com uma toquinha de lã na cabeça e era imprevisível como um cachorro louco).

 

Ou, então, “Jesus”, cabeludo que usava camisa de bata, andava com livros sobre Parapsicologia embaixo do braço e perdera o bonde dos anos 70, bancando o hippie em plena era do New Wave e do Gótico. Uma vez, fiquei de castigo com “Jesus” na secretaria, porque matamos aula para comprar incenso no centro de São Paulo e, adicionando desonra à injúria, acendemos o dito-cujo na aula do Professor Pedro Paulo.

 

Incenso comprado na Praça da República: cinco cruzados.

 

Caixa de fósforo: um cruzado.

 

Cabular aula na companhia do Menino Jesus: não tem preço!

 

* * *

 

Esta semana, fuçando no YouTube, achei um vídeo que mostra o Colégio Salete na atualidade. Foi feito pelos alunos e mostra a garotada se preparando para um evento denominado “Expo Salete” – que, imagino, seja o equivalente das nossas “Feiras de Ciências”. É incrível como o colégio está igual – colocaram uma rede de proteção na arquibancada (Ainda bem! Era comum o público ser alvejado por bolas de futebol ou handball quando assistia aos campeonatinhos internos da escola) e um canteiro entre o primeiro e o segundo prédios.

 

De resto, está tudo ali – até a árvore centenária que ocupava parte da área contígua ao ginásio (atrás da qual a gente se escondia nos testes de Cooper ministrados pelo professor de Educação Física, fumando um cigarrinho ou discutindo as mortes mais criativas do último Sexta-Feira 13). Nos anos 80, dizia-se que suas raízes eram tão incomensuravelmente grandes que viajavam pelos subterrâneos do bairro, chegando até o Metrô.

 

Se era verdade ou não, quem pode saber?

 

O importante é que ela ainda está de pé.


E eu também!

 

Escrito por Eduardo Torelli às 20h56
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02/12/2011


 

"ESQUERDA, DIREITA, VOLVER!"

 

 

Assim que nascemos, já somos de Câncer, Touro ou Escorpião. Eis aí a vantagem da astrologia sobre a política: ninguém precisa decidir qual será seu signo astrológico, pois trata-se de um item de fábrica, pessoal e intransferível.

 

Já a orientação política é um fardo bem mais difícil de administrar. Afinal: ser de esquerda ou de direita é uma escolha do cidadão. Entendeu agora por que o horóscopo é uma das seções mais requisitadas do jornal, enquanto o primeiro caderno é para poucos?

 

Um indivíduo razoavelmente dotado de intelecto terá grandes dificuldades em escolher uma orientação política. Afinal: há bons e maus exemplos nos dois lados.

 

* * *

 

Peguei-me refletindo sobre isso há alguns dias, acompanhando a ridícula “ocupação” da USP por uma malta de filhinhos de papai. Que patético, que triste, aquele gente posando de revolucionária e usando camisas GAP para esconder o rosto (protegiam as identidades de quem? Das mães intransigentes? Das avós cardíacas?) e usando caríssimos mobiles para registrar os bastidores do “conflito”.

 

É nessas horas que sou de extrema direita. Queria que aquela babaquice demagógica caísse por terra a golpes de cassetete. Queria ver um pouco de arbitrariedade, de ignorância comendo solta. Afinal, um burro só abaixa a orelha em duas ocasiões: quando outro burro fala ou quando é escoiceado por um burro mais forte.

 

Mas aí, entro em conflito: a rigor, não sou de direita. E mesmo assim, minha tolerância anda “zero” para esse blá-blá-blá auto-indulgente da esquerda.

 

Será que eu sou normal, doutor?

 

* * *

 

Um de meus tios-avôs era de extrema direita.

 

Direita, não: direitíssima!

 

Era Mussolinista e me dava medo, embora nunca tenha me tratado mal. Longe disso, era a cordialidade em pessoa.

 

Nem imaginava o terror que me inspirava com aqueles olhinhos verdes e lupinos, que jamais sorriam e que às vezes se estreitavam como bocas de revólveres. Não era de propósito: meu tio-avô estava apenas “sendo de direita”.

 

* * *

 

Sua imagem conjurava todos os clichês que passei a associar à direita: corte de cabelo antiquado (com pega-rapaz e tudo); camisas sociais de manga comprida (mesmo sob o sol inclemente do litoral paulista); cachimbo permanentemente abastecido com fumo sabor chocolate; e – o clichê master do conservadorismo! – meias pretas sociais em toda e qualquer situação.

 

Meu tio-avô usava meias pretas até à beira do mar. Suponho que também em outras situações, embora isso eu só possa intuir. Fiquei com essa ideia de que pessoas conservadoras usam meias pretas o tempo todo. Talvez por isso, prefira usar meias beges ou marrons. Meias pretas são para casamentos, recepções ou enterros.

 

* * *

 

Em contrapartida, em 1994, conheci a versão encarnada da esquerda festiva. Era o noivo da amiga de uma ex-namorada – e acho que o detestei à primeira vista.

 

Tudo no sujeito era revoltante: o jeito blasé, o olhar de superioridade (uma contradição interessante da “ultra-esquerda” é a mania que seus advogados têm de se julgar intelectualmente superiores aos outros, apesar de propagarem a igualdade) e as intermináveis digressões sobre a “iniquidade do pensamento pequeno-burguês”.

 

* * *

 

Obviamente, com tantas reservas quanto ao lado prático da vida, o sujeito não trabalhava. Estava na faculdade de História havia dez anos, sem produzir nada, sem sequer justificar o ar que respirava. Era o tipo de basbaque que encontrava “mensagens ocultas e idiotizantes” em filmes como “Rambo” ou “Duro de Matar” – um sonhador, enfim, que se acomodou nesta fantasia de “1984” para prolongar a infância, para justificar o “dolce far niente” que era sua vida.

 

Logo percebi que não queria ser aquele cara.

 

Tanto quanto não queria ser meu tio-avô...

 

* * *

 

O que o Mussolinista e o Bolchevista me ensinaram foi que, em política, extremos são territórios a se evitar. O ato de votar nada tem a ver com a emoção de uma final de campeonato – fanatismo em futebol é algo lamentável, entretanto, compreensível, pois o futebol é uma paixão (tanto quanto o amor por motos, o interesse em vinhos ou a mania de viajar ou colecionar selos).

 

A política, por sua vez, não deve – não pode! – ser uma paixão.

 

Muito mais sábio é encará-la com a frieza de um cirurgião. Muito mais certo é manipulá-la com a medida exata de cuidado e desdém com que um enxadrista dispõe de suas pedras em um torneio importante.

 

No xadrez, um bom jogador não tem particular apreço pelo Bispo, pelos cavalos ou pelos peões. Ele os utiliza de acordo com a situação, sempre visando o melhor resultado. Se um bom enxadrista se apega à vitória, e não às pedras, por que o bom eleitor deveria se apegar à esquerda ou à direita, quando o foco deveriam ser os candidatos e propostas que, naquele momento histórico, são melhores para a sociedade como um todo?

 

Um eleitor consciente não é de esquerda e nem de direita. É as duas coisas – só que nunca ao mesmo tempo.

 

Tudo depende de “quem”.

 

Tudo depende de “onde”.

 

Mais ainda, tudo depende de “quando”.

 

O resto é conversa para ativista de butique dormir.

 

P.S.: Este post é dedicado ao amigo Lucian Novo, visitante frequente deste blog e um homem de ideias & ideais. Lucian será papai em breve e viverá a mais transcendente experiência na vida de um homem (até o momento, lamentavelmente negada ao azedo mantenedor deste blog). Congratulations, champs!

 

P.S. 2: Ativistas de butique estão na moda, mas nem de longe são uma invenção do presente. Eles sempre existiram – e, aposte seu fígado: nunca deixarão de existir. Diz aí, Raul, para alegria geral da nação:

 

Escrito por Eduardo Torelli às 23h10
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18/10/2011


 

TRÊS MILIGRAMAS DE

NOSTALGIA, PLEASE?

 

 

Quando garoto, eu tinha o hábito bobo de olhar para meus próprios pés pisando o chão enquanto memorizava detalhes do solo. O grafismo dos ladrilhos, pequenas imperfeições na calçada ou no meio-fio – qualquer coisa, enfim, que me permitisse passar por ali no futuro e identificar um resquício físico do meu passado.

 

Das calçadas, passei às árvores. De férias em Campos do Jordão (SP), nas proximidades do Boulevard, procurava fixar na mente ranhuras de arbustos e árvores que decoravam o centro de Capivari. Um dia – pensava eu, ingenuamente –, passando por aquelas ruas, eu teria uma lembrança vívida de minha adolescência (evocada por um tronco, um nó na madeira, qualquer coisa mais durável do que um homem ou seus efêmeros rastros).

 

* * *

 

Creio que 85% da humanidade não está nem aí para esse tipo de coisa. E que 95% é completamente imune à nostalgia. Bem, este escriba é a exceção da regra; sou aquele cara que se desvia do caminho para passar brevemente diante da casa de uma ex-namorada, de familiares que dali se mudaram ou de amigos que já partiram. Gosto de revisitar in loco minha história.

 

É mágico, até hoje, passar pelo prédio onde cresci, nos anos 1970, e ter um revival imediato do terceiro grau. O edifício foi parcialmente demolido. Mas (acredite ou não) a porta ainda é a mesma. Aos 41 anos de idade, me dou ao luxo de visitar minha antiga casa (ou o que sobrou dela) e tocar na fechadura que manipulava aos oito ou nove anos, quando chegava da rua com o joelho sangrando ou arrastando minha bicicletinha Caloi. Estou falando do número 196 da Rua Dr. César, zona norte de São Paulo (SP). Duvida? Vá até lá conferir.

 

É vertiginoso pensar nas mudanças que o tempo operou no mundo ao longo da minha insignificante vidinha. Mas parte do meu passado ainda está lá. Pode ser tocada, até cheirada, se assim eu quiser.

 

* * *

 

Ora, ora – que “hiperbólico” início de post!

 

Afinal, o tema aqui proposto não sou eu; não é sequer minha insignificante vidinha. É a nostalgia, pura e simples. Gente que surpreende pelo empenho com que se dedica a explorar o passado. Autênticos arqueólogos de emoções, pesquisadores da memória afetiva de nossa espécie (sobe a música dramática!). 

 

Este blog raramente foca o cinema – ao menos, de forma objetiva –, embora o escriba em questão tenha muitos amigos cinéfilos (com os quais compartilha algumas lembranças audiovisuais de um passado cada vez mais diáfano frente à urgência e a “descartabilidade” do mundo atual). E é a estes amigos que me dirijo esta semana.

 

* * *

 

“HerveAttia” é um usuário do site YouTube que leva muito a sério sua grande missão: com uma mochila nas costas e uma câmera na mão, percorre os sets de filmes famosos que marcaram nossa geração (a minha e a dele), mostrando em que estado se encontram aquelas locações. É um trabalho insano, que envolve uma pesquisa hercúlea. Mas o resultado dispensa comentários: seus vídeos, além de informativos e nostálgicos, são deliciosos de assistir.

 

Os links a seguir referem-se aos filmes O Planeta dos Macacos (1968), Laranja Mecânica (1971) e Superman (1978). Tentarei postá-los aqui – mas, se eventualmente a incorporação estiver desativada e os links não mais funcionarem, vá até o YouTube e procure pelo canal de HerveAttia. Ali estão imagens atuais das ruas, prédios e instalações públicas utilizadas em uma infinidade de filmes marcantes, incluindo Blade Runner e Os Irmãos Cara-de-Pau.

 

Lembrando que meu bom hermano carioca, Cláudio Rodrigues, fez um trabalho semelhante visitando as locações de alguns episódios clássicos da série 007 (suas andanças estão resumidas em um DVD muito bacana, que ganhei de presente de aniversário; é inacreditável, mas muitos sets de 007 Contra a Chantagem Atômica e 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade não apenas continuam de pé, como estão no mesmo estado de conservação em que se achavam nos anos 1960).

 

* * *

 

Antes de postar os vídeos de “HerveAttia”, cumpre apresentar um registro melancólico, também do YouTube e disponível no canal “TV Resgate”. Ele mostra como está a casa onde, nos anos 1970, era gravado o programa “Sítio do Picapau Amarelo”.

 

Prepare o lenço e chore: esta é uma prova cabal de que o Brasil (este gigante em eterno desenvolvimento) realmente carece de memória...

 

That’s all, folks.

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Eduardo Torelli às 21h00
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11/10/2011


 

O MOUSE QUE RUGE

 

 

Steve Jobs morreu – oach!

 

Soube disso porque, na semana passada, acessei o Facebook e me senti no velório errado.

 

Já aconteceu comigo no mundo real – na dimensão live-action: fui prestar as últimas condolências ao pai de uma amiga e entrei na capela errada, onde perambulei por angustiantes momentos tentando reconhecer qualquer pessoa viva ou morta no recinto – sem sucesso. Foi o mesmo na semana passada. Steve Jobs morreu e participei do cerimonial de despedida, embora só tivesse uma vaga noção de quem era o morto...

 

* * *

 

Depois me informei melhor.

 

Inteirei-me de tudo o que Jobs fez e reconheci sua relevância para o presente e para o futuro. Mesmo assim, achei um pouco demais a reação emocional da brasileirada à morte do inventor, empresário e magnata. Contatos meus “piraram na batatinha” e mandaram ver, em caráter totalmente coloquial: “pô, mó sacanagem... Steve Jobs morreu!”

 

Outros trocaram suas fotos no “Facebaak” por ícones que referenciavam o defunto e os produtos que ele desenvolveu ou inspirou. Tudo muito lúdico, muito pessoal – era como se Jobs fosse da família ou um amigo mais velho. Uma deferência que, normalmente, a massa só dedica aos artistas pop. E mesmo assim, só a cantores e astros do cinema. Escritores, pintores, fotógrafos e videoartistas não têm “punch” para parar o “Facebaak”.

 

* * *

 

É uma vitória, portanto, o que o “Estevão Empregos” conseguiu. Quando um técnico, na morte, se iguala a um Michael Jackson ou algo que o valha, é um fato a ser celebrado. Veja: ninguém vai ao túmulo de Thomas Alva Edison em seu aniversário de morte agradecer-lhe (em forma de preces) o advento da energia elétrica. Já imaginou o que seria sua vida sem energia elétrica, grandêêê? Pois é: melhor nem imaginar!

 

Da mesma forma, pouca (pouquíssima, de fato) gente sabe que, sem Alexander Graham Bell, a comunicação da humanidade ainda estaria na idade das trevas. O telefone – sua grande invenção – tornou o mundo “menor”, encurtando distâncias que, até então, eram imensuráveis. A Internet é só uma versão supervitaminada daquele evento.

 

Também temos uma dívida de gratidão com outro “Alexander” – este, de sobrenome “Fleming” –, cujo feito maior, na opinião deste escriba, põe qualquer engenhoca do “Estevão Empregos” na lixeira do Windows: a penicilina. Nada menos que o primeiro dos antibióticos, dádiva que reduziu drasticamente o número de mortes causadas por doenças infecciosas.

 

E por aí vai.

 

* * *

 

Não estou desmerecendo o falecido – que, com seus conceitos inovadores (estamos falando de computadores pessoais, gente... Hello?!!), realmente promoveu um Extreme Makeover no planeta. Mas é fato que toda esta comoção com sua morte é mais um reflexo do marketing (ferramenta que não estava ao alcance de Thomas Alva Edison e dos “Alexander” anteriormente mencionados) do que, propriamente, uma prova de que as pessoas reconheciam e reverenciavam seus feitos. R.I.P., “Estevão”!

 

P.S.: é intriga da oposição a história de que Bill Gates teria aventado a hipótese de beber cianureto no último dia 04 de outubro (exatamente 24 horas antes de “Estevão” bater as botas) só para desencarnar ANTES do ex-colega, ex-rival e ex-desafeto. As pessoas maledicentes que espalharam este boato realizaram uma operação ilegal e serão fechadas (sic).

 

 

Escrito por Eduardo Torelli às 18h32
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