BAÚ DO EDU


20/04/2012


 

SEXTA-FEIRA

DA PAIXÃO

 

 

 

 

Yan, meu lhasa-apso de estimação, foi para o Céu dos cachorrinhos há coisa de três semanas. Foi um nocaute. Passei dois dias chorando como uma garotinha, mas agora estou melhor. Mentira, não estou, não. Ainda choro como uma garotinha – mas, de uns dias para cá, só no carro, à noite, quando volto do trabalho para casa.

 

É esquisito abrir a porta da sala e não vê-lo ali. Yan era um cachorro de apenas 8 kg, mas parecia ocupar todos os cômodos, cada recôndito da área social, do quintal ou da lavanderia. À noite, quando me levanto para beber água ou ir ao banheiro, ainda olho por onde piso. Em minha mente, ele ainda está por ali, fazendo aquelas incursões noturnas que todo cachorro faz. Mas, claro, é só minha imaginação. Uma “sensação fantasma”.

 

Dizem que acontece o mesmo com quem perde um braço ou uma perna. Durante semanas, o amputado tem a impressão de que o membro continua ali. Sente coçar um braço que deixou de existir. Tem câimbras em uma perna que lhe foi retirada. Curiosa é a relação do ser humano com a perda.   

 

* * *

 

Sempre simpatizei com cães, mas nunca tivera um deles. Ingenuamente, achava que perder um comparsa peludo fosse uma experiência triste, mas que não se equiparasse à perda de um membro da família. Eu estava errado: o vazio, o buraco que fica na alma da gente, é o mesmo. Se há algum atenuante é a noção de que, quando vêm ao mundo, cães estão largados à sua própria sorte. São bichos domesticados, não sabem se virar sozinhos. Foram excessivamente “humanizados” e não dispõem de meios para sobreviver no mundo dos homens, esta espécie hedionda e moralmente antropofágica que violenta os próprios filhos (e os filhos dos outros) e não se sensibiliza mais com os infortúnios impostos à sua própria raça, que se dirá a animais quadrúpedes.

 

Aí, tenho um consolo: Yan deu uma sorte danada. Foi adotado por uma família que o amou incondicionalmente. Jamais teve um dia miserável. Jamais sequer sangrou. Na velhice, diabético, teve quem cuidasse dele, quem lhe aplicasse injeções de insulina, quem o alimentasse na hora certa – minha mãe, que o tratou e acalentou como um bebê humano desde os primeiros dias de vida. Eu mesmo não sei se contarei com essas regalias quando estiver velhinho. Mais: suspeito que morrerei de câncer ou de forma igualmente desagradável. Yan morreu de um ataque do coração. Não sentiu nada – se a gente soubesse, de antemão, que o fim seria assim, jamais teria qualquer motivo para temer a vida.

 

Dos males, o menor. Meu único trabalho, agora, é administrar a perda. Estou pagando o ônus por 12 anos de muita felicidade. É justo.

 

* * *

 

Depois de um primeiro e pavoroso fim de semana sem o Yan, sobreveio o feriado de Páscoa e achei – não sei por que – que seria uma boa ideia dar uma passada na casa da minha mãe e levá-la à tradicional missa celebrada no bairro de Santana por ocasião das sextas-feiras santas. Que egoísta eu sou: a última vez que havia pisado em uma igreja fora há dez anos, na missa de sétimo dia do meu pai. Assumo ser um desses covardes que só buscam o consolo espiritual nas horas difíceis. Bom, pelo menos, sou sincero.

 

A Matriz de Santana está igualzinha ao que era em minha infância – passo na frente do templo quase toda semana, mas de carro, sempre às pressas. No fundão da igreja, de pé, assisti a um quarto da missa. Foi o máximo que aguentei, mas apreciei a sensação de quietude proporcionada pelo prédio.

 

É quase como se um campo de força acústico-espiritual isolasse a edificação dos sons mundanos da rua. Ouvi, pela enésima vez, o relato da prisão de Jesus, os argumentos de acusação contra Sua pessoa, e, por fim, os sórdidos detalhes de Sua execução. Dessa vez, a mise-en-scène se resumia a um locutor lendo, emocionado, aquele libreto de missa – nada muito espetacular. Mas, em outros tempos, nessa mesma igreja, os párocos recorriam até a montagens teatrais para recriar, diante do público, os lances mais impactantes da Paixão.

 

Em 1979, o teatro foi tão bom, mas tão bom, que houve reprise do espetáculo na missa de sábado. Lembro de chegar esbaforido à frente da igreja e perguntar ao sacristão: “Já julgaram Jesus? Não? Dá licença, deixa eu entrar.”

 

* * *

 

No espírito em que eu me encontrava, talvez tivesse assistido à missa na íntegra na última sexta-feira santa. Mas o sermão me demoveu dessa ideia. Hoje sei qual é o problema desses rituais litúrgicos quando você é (ou tenta ser) um livre pensador: ministrado no meio da missa, o sermão é um tremendo anticlímax. É como se você estivesse vendo um filme e, no meio da projeção, as luzes se acendessem e um crítico aparecesse ali na frente, fazendo suas considerações sobre o longa-metragem que, até então, você acompanhava com interesse. Melhor seria se o sermão ficasse para o fim, cabendo a cada um a decisão de ouvir ou não as considerações do padre. Crítica no meio do espetáculo não tem condições!

 

Fui fumar um cigarro lá fora e, como se contratados por um astuto diretor de elenco, personagens da minha infância começaram a se materializar à minha frente – primeiro, o Gelol, amigo do meu irmão na Comunidade de Jovens e que eu não via desde 1985 (ou 86). Conversamos, rimos, atualizamos um hiato de duas décadas. De repente, não mais que de repente, também surgiram meu primo Ronaldo e – pasme! – minha professora de catecismo. E muitas outras pessoas das quais eu não me lembrava mais. O assunto do cachorrinho veio à tona e aquela boa gente – aqueles fantasmas redivivos – me consolou, me abraçou, me deu tapinhas nas costas e até me fez rir. Quem diria? Estávamos conectados de novo, após anos de separação. E, no minuto seguinte, cada um seguia seu rumo, de volta à sua própria vida.

 

* * *

 

O que a última sexta-feira da paixão me ensinou foi que, quando nos lembramos de nosso passado, nos tornamos mais resistentes aos nocautes do presente. Situações assim – reencontros fortuitos e marcantes, como estes – nos fazem ver que, antes do “hoje sombrio”, houve incontáveis “ontens felizes”. E que morremos e renascemos um sem-número de vezes nessa vida, embora tendamos a nos esquecer disso e a supervalorizar a dor mais recente. Isso, é claro, não exclui o sofrimento, o vazio deixado por uma perda. Mas nos lembra de que viver é testemunhar uma sucessão de anoiteceres e amanheceres. E de que, entre estes – acredite, sei o que estou dizendo –, é possível (bem possível) a gente ser feliz.

 

Tchau, Yan. Obrigado por tudo. Com seus 8 kg de alegria e amor (e sem dizer uma única palavra), você fez uma enorme diferença.

 

De modo algum foi tempo perdido.

 

 

Escrito por Eduardo Torelli às 20h23
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20/03/2012


 

O CLUBE DA

FELICIDADE E DA SORTE

 

 

 

De repente, não mais que de repente, Milton Nascimento se materializou na minha TV. Com aquele cabelão afro e cantando o clássico “Maria, Maria”.


 

Pensei que era uma homenagem a todas as “Marias” desse Brasilzão de Meu Deus, mas não era: a Maria em questão (homenageada no comercial) tinha nome e sobrenome: Maria Gadú.

 

De quem – juro! – nunca ouvi falar.

 

* * *

 

É um fato: a mídia anda tão fragmentada nesses tempos de comunicação segmentada que todo e qualquer famoso, a partir de agora, deveria usar crachá. Para que saibamos que é famoso, mesmo sem termos noção do por quê (ele canta? Dança? Sapateia? Quem sabe cura lepra e ressuscita os mortos?).

 

Foi-se o tempo em que os comerciais de TV eram protagonizados por gente incontestavelmente famosa, como o Frank Sinatra, a Brigitte Bardot ou o Pelé. Até a Maria Alcina (quem?), em seu tempo, era mais famosa que a Maria Gadú.

 

Duvida?

 

Pergunte à sua avó.

 

* * *

 

É possível que eu esteja perdendo algo de valioso ignorando a obra de Maria Gadú – tenho um forte pressentimento que sim. Entretanto, não me sinto muito tentado a conhecê-la, visto que escutei seu nome, pela primeira vez, em um comercial da Nextel.

 

Nextel, aquela empresa de vanguarda que criou um interessante “marketing às avessas”: por razões que só Freud e o Exorcista explicam, os comerciais da marca fazem com que a gente memorize seus produtos à custa de estímulos visuais negativos. Sim, porque suas campanhas são estreladas por algumas das celebridades mais chatas do século XXI, um score altíssimo em se tratando de Brasil, o país do Padre Marcelo e da Ana Maria Braga.

 

Não é possível: uma empresa que escolhe como porta-vozes Fernanda Young, Fábio Assunção e Herbert Vianna não quer apenas vender produtos e serviços. Também quer fazer mind games com a gente. Está bulindo com nossos cérebros, irmãos!

 

* * *

 

Os comerciais da Nextel já são horríveis quando se concentram em um ou dois chatos de cada vez (veja o bocejante diálogo entre o jogador Neymar e seu antipático papá na praia, repleto de chavões pinçados de livros de auto-ajuda). Mas, recentemente, a empresa se superou, concentrando, em um mesmo anúncio, os cinco maiores “malas” que já estrelaram suas campanhas: Alex Atala, Fernanda Young, Herbert Vianna, MV Bill e Fábio Assunção.

 

É isso aí: “MV Bill”.

 

(...)

 

Não me pergunte.

 

Não fomos apresentados.

 

* * *

 

Além da Maria Gadú, do MV Bill e do pai do Neymar, o mantenedor deste blog declara jamais ter visto mais gordas outras celebridades das quais anda insistentemente ouvindo falar: quem são Michel Teló, Malvino Salvador, Fael, João Carvalho e Pokémon? Essa gente realmente existe? Ou são personagens virtuais, criados para movimentar as redes sociais? Será que comem? Será que defecam? Será que votam? Esses nomes são verdadeiros ou constituem apenas pseudônimos?

 

São dúvidas que me consomem e atormentam, e que se juntam a outras, retroativas. Por exemplo: o que faziam da vida aqueles gêmeos fortões que viviam aparecendo no SBT (um deles, se não me engano, namorou a Solange Frazão)? Eram cantores? Eram modelos? Eram atores? Nasceram aqui na Terra ou só estavam de passagem, exilados da nebulosa de Orion?

 

Nenhuma das alternativas, suspeito. Eram apenas gêmeos.

 

E, se isso basta para os pesquisadores do Senso, por que não bastaria para o fiel espectador da TV aberta, um consumidor cada vez menos exigente?

 

* * *

 

O mantenedor deste blog apela aos marketeiros da Nextel que, no futuro, quando esta anonimomania passar, seus comerciais (muito bem feitos, por sinal) passem a incorporar pessoas realmente célebres, e não personagens que só ascenderam no Ibope à custa de felicidade e de sorte. Tipo assim: que a gente vê e logo pensa: “nossa, que desperdício teria sido para a humanidade se esse sujeito tivesse se tornado contador, funcionário público ou jornalista – e não artista.”

 

Um palpite a qualquer hora?

 

Milton Nascimento!

 

Que, no comercial da Maria Gadú, faz mera figuração...

 

* * *

 

Milton Nascimento!

 

Esse é o meu clube.

 


 

Escrito por Eduardo Torelli às 19h43
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09/03/2012


 

DECADENCE

SANS ELEGANCE

 

 

 

 

Deu na coluna de Cristina Padiglione no “Estadão” esta semana: a Rede Globo de Televisão registra, atualmente, o pior Ibope nacional de sua história. É um handicap bem diferente da Globo dos tempos áureos – aquela que o Clodovil costumava chamar de “Vênus Platinada” e que era regida com mão-de-ferro por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

 

Trabalhei na TV Globo em 1990/1991. Fui estagiário do Departamento de Promoções, subordinado ao grande (em todos os sentidos, pois tinha uma pança estratosférica!) Jorge Moreno, então, Gerente de Produção da emissora em São Paulo. Tenho saudade do tempo que passei naquele predinho no centro, bem ao lado do Minhocão, onde virava as tardes assistindo a filmes e séries e criando chamadas promocionais para essas atrações.

 

* * *

 

A Globo da época ainda era o “Monstro Sist” citado por Raul Seixas em seus discursos e músicas. Uma emissora incrivelmente influente que manipulava eleições, proibindo a inserção de bandeiras vermelhas ou de personas non-gratas em seus telejornais e chamadas. Dois anos antes de assinar minha carteira, a Globo mexera os pauzinhos para eleger o Collor, de longe, o mais ridículo dos presidentes brasileiros (isso é, descontando-se o Milton Gonçalves naquele filme Segurança Nacional).

 

No papel de “Monstro Sist”, a Globo era adepta daquelas baboseiras autoritárias que fazem a alegria dos tiranos: qualquer deslize era motivo para demissão sumária. Errar até podia ser humano, mas não era condizente com o “Padrão Globo de Qualidade”.

 

* * *

 

Eu que o diga.

 

Um dia (ih, que burro, dá nota zero pra mim!), quebrei uma “Cópia A” do filme “Tubarão 2” na moviola da Promoções enquanto selecionava imagens para uma chamada do referido longa-metragem. Passei duas horas escondido em um banheiro do andar térreo, abraçado a um rolo de celulóide, esperando por uma oportunidade de entrar no almoxarifado de películas ao lado da recepção, onde, finalmente (cinco quilos mais magro, por conta da sudorese), pude emendar os fotogramas danificados usando uma seladora especial. Se tivesse sido pego, eu teria sido demitido. Simples assim, "chefia".

 

Duvido que esse tipo de terrorismo corporativo ainda tenha lugar no mundo. É algo a ser exposto e admirado em um museu, tanto quanto os índices de audiência absolutos que a Globo obtinha naquela época. São histórias que nunca mais se repetirão.

 

* * *

 

Havia, porém, uma coisa admirável na Globo daquele tempo – desde que você abstraia das questões ideológicas e se fixe, apenas, em sua capacidade de proporcionar diversão: o “Padrão Globo de Qualidade” funcionava mesmo. E, cá pra nós, acho que aquele clima militar tinha tudo a ver com a eficácia do sistema. Basta rever uma das boas novelas da época (como “Roque Santeiro” e “Vale Tudo”) para constatar que, em suas cenas, não havia uma folha fora de lugar, uma interpretação recalcitrante, uma concessão à auto-indulgência com a qual a “Vênus Platinada” se policia atualmente.

 

E, sem dúvida, ele – o temido Boni, inventor do “padrão” – era o homem certo para liderar o exército naquele tempo. Não só por suas atitudes enérgicas, que fizeram escola e transformaram uma emissora de televisão em uma versão moderna do Senado Romano (antes de se demitir ou ser “fritado”, acho que era direito do funcionário beber cicuta...): mas por ter sonhado (e sabido implementar) uma TV que podia ser de qualquer país, que “não tinha sotaque” (palavras textuais) e que, sim, conquistou uma parte significativa do mundo com sua teledramaturgia “tipo exportação”.

 

* * *

 

Antes do Boni, a Globo era uma emissorazinha regional que pensava pequeno e agia como tal (basicamente o que é hoje, apesar do pedigree e do alcance nacional). Depois do Boni, tornou-se uma rede – uma potência em seu segmento, tanto quanto a CBS e a NBC nos EUA. E creio que, sob o comando do “gordinho”, teria resistido melhor aos sucessivos nocautes que foram desconstruindo sua invencibilidade, ano a ano (não por coincidência, depois de Boni abdicar do cargo): a fúria dos pastores eletrônicos, o advento da Internet e das redes sociais e a decadência pública de seu casting áureo. Alguém ainda aguenta olhar para a cara da Susana Vieira? Alguém ainda se impressiona com as atuações “magistrais” do Stênio Garcia? Bah – vá ver se eu estou na esquina.

 

* * *

 

A trajetória da Globo nos anos 60, 70, 80 e 90 é contada em primeiríssima pessoa no legal “O Livro do Boni”(Casa da Palavra, 464 páginas), que estou lendo atualmente e que recomendo a todos por aqui. Olha: não é uma narrativa excepcional, porque o Boni, como contador de histórias, é um ótimo empresário de TV. Mas os relatos são curiosos, tanto quanto a descoberta de que outros ícones locais das telecomunicações foram fundamentais para a consolidação da Globo (sempre por intermédio do Boni, que passou por esses lugares antes de ir tocar a emissora da Família Marinho): as TVs Tupi e Excelsior, a Rádio Bandeirantes e até a Record dos festivais, na era “pré-evangelização”. Pra matar o tempo e relembrar en passant momentos divertidos da telinha, não há pedida melhor.

 

Em tempo: o tal do “Viva” (na grade da NET, Canal 36) andou reprisando, com sucesso, alguns hits da emissora produzidos nos anos 1980, como as já mencionadas novelas “Roque Santeiro” e “Vale Tudo”. Entretanto, anda forçando a barra ao tentar vender a ideia de que “Top Model” e “Barriga de Aluguel” foram importantes marcos da cultura pop nos anos 90. Rá, rá – que balela! “Barriga de Aluguel” era tão ruim na época como é hoje; e ninguém (nem a mãe do Taumaturgo Ferreira) se lembrava mais de “Top Model” e de seus personagens caricatos.

 

* * *

 

Recordar é viver, sim!

 

E mentir é um hábito muito feio.  

 

Duas lições que aprendi com minha avó. 

 


 

Escrito por Eduardo Torelli às 01h11
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02/02/2012


 

O INFERNO DAS CITAÇÕES

 

 

 

Meu novo passatempo no Facebook é atribuir frases de efeito a pessoas ilustres que nunca as disseram. Taí: essa é minha vingança contra o excesso de citações atribuídas a Clarice Linspector e Bob Marley que diariamente pipocam nas redes sociais. Clarice e Bob Marley estão se virando nos túmulos por causa do Google e da “Revista Caras”. Mas como isso aconteceu?

 

Ora: feita “por” e “para” gente tapada, a “Revista Caras” começou com essa moda de publicar citações de famosos fora de contexto. Desse modo, suas leitoras mentecaptas poderiam fingir ser inteligentes em brunchs, happy hours e afins, destilando pérolas de cultura enquanto besuntavam uma torrada com requeijão ou, sei lá, ajeitavam o mega hair com um menear de cabeça.

 

E o que o Google tem a ver com isso? Ora: onde diabos você acha que pessoas pouco imaginativas (contratadas ou não da “Revista Caras”) encontram tais frases de efeito?

 

Em um livro é que não é!

 

* * *

 

Indiscutivelmente, o Google é um tipo de deus pagão onisciente e onipresente. Pena que vive chapado! Pense em Zeus cheirando uma carreirinha. Taí – esse é o Google.

 

Com sua prodigiosa memória, o buscador tem o poder de acondicionar, por anos, palavras há muito lançadas ao vento e materializá-las bem à sua frente em dois passos (“procurar” e “carregar página”). Também pode ensiná-lo a fazer pontos-cruz, consertar vazamentos ou construir uma bomba atômica (desde que você adquira plutônio no Mercado Livre).

 

* * *

 

Infelizmente, o Google não sabe contextualizar nada – de fato, esta nem é sua obrigação. Porém, aí é que está: junte um deus sem noção e hordas de fiéis desprovidos de senso crítico e o Apocalipse se torna apenas uma questão de tempo.

 

Nos hilariantes desvãos da Internet, tenho a impressão de que Bob Marley já opinou sobre tudo – do corte de cabelo da Dilma às condições sub-humanas de Bangu 2. Não é culpa do Bob, claro – o homem está morto há anos. As pessoas é que saem atribuindo a ele todo tipo de aforismo. Quando o Bob não está disponível, vão amolar a Clarice Linspector (1920-1977), que, claro está, também não se acha mais em condições de advogar em causa própria.

 

* * *

 

Se os mortos são vilipendiados pelo Google e o Facebook, imagine o que acontece com os vivos (aos quais, tradicionalmente, não se dispensa a mesma deferência concedida a quem já partiu)? Arnaldo Jabor, tadinho, que o diga: não adianta o comentarista jurar de pés juntos (seja por meio do jornal impresso ou da TV) que nunca, never, jamé emitiu esta ou aquela opinião sobre tiazinhas gordas, falta de autoestima ou relacionamentos amorosos. Frases a ele atribuídas (que, de fato, não são dele) continuam a invadir nossos e-mails e profiles.

 

Chegou um ponto em que o Arnaldo se tornou dois Arnaldos: um é ele mesmo – aquele que o articulista vê todos os dias no banheiro, peladão ou arreganhando os dentes para checar a eficácia de um novo creme dental clareador; o outro é o das citações indevidas. Um Arnaldo “virtual”, que não tem R.G., jamais dirigiu um filme (nesse ponto, é preciso dar algum crédito ao Jabor imaginário!) e que só existe no pensamento de hordas de néscios digitalmente “inclusos”.

 

* * *

 

Ao menos, Arnaldo Jabor tem um precedente histórico de vulto: algumas correntes de pensamento afirmam que Sócrates – não o grande jogador do Corinthians, que Deus o tenha; o outro Sócrates, grego de nascença e pensador de profissão – jamais existiu. Ele teria sido uma invenção de seus discípulos, um tipo de “avatar”, uma idealização do pensamento humano.

 

O que quer dizer o seguinte: se aqueles gregos folgazões (que passavam o dia enrolados em togas a brincar com os "pipis" uns dos outros) não estivessem tão ocupados fazendo mind games com a humanidade, o Facebook, o Google e o Twitter teriam sido inventados dois mil e quatrocentos anos atrás.

 

Não quero nem imaginar o que teria sido do mundo em face dessa aterradora possibilidade.

 

* * *

 

És um devoto do Google, homem?

 

Confias nele cegamente?

 

Pois, então, contemplai a verdadeira face do teu deus:

 

 

Escrito por Eduardo Torelli às 01h39
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17/01/2012


 

HISTÓRIAS DE FANTASMAS

 

 

Pouco antes das onze, o papo no boteco enveredou pelas brumas do fantástico, do inexplicável, do sobrenatural. Bom, mais ou menos: o clima era descontraído demais, ao menos em comparação ao de uma sessão espírita ou, sei lá, do exorcismo da Emily Rose. “Não acredito em fantasmas, em anjos ou em Deus”, bradou meu amigo, olhos injetados de birita e com uma determinação vitorbelfortiana de nocautear qualquer Gasparzinho ou espectro não-camarada que por ali passasse.

 

Comedido, desviei-me estrategicamente do tópico “Deus”. Também me abstive de discutir o sexo dos anjos, mas tive que dar razão a ele no que se refere aos fantasmas. É fato: embora funcionem bem no cinema, assombrações só podem ser contos da carochinha.

 

* * *

 

Acompanhe meu raciocínio.

 

O sujeito é advogado, físico nuclear, neurocirurgião ou jornalista. Já defendeu teses importantes, palestrou em universidades e cativou centenas de pessoas com sua lucidez e eloquência (sem mencionar seu senso de humor oportuno e inteligente).

 

Entretanto, ao morrer, a primeira coisa que faz é se cobrir com um lençol, esconder-se no sótão e gritar “Buuu!” para o primeiro infeliz a lhe passar pela frente.

 

Não, não!

 

Isso não faz sentido...

 

 

* * *

 

O leitor pode contra-argumentar, me garantir que “as coisas não são bem assim”. Afinal, Hollywood nos mostrou fantasmas BEM assustadores. Tipo aqueles do “Iluminado”, do “Sexto Sentido” ou do “Chamado”.

 

Lençóis – consideremos a alternativa – poderiam ser os “modelitos” usados por defuntos pouco imaginativos. Digamos, a “gente diferenciada” do limbo, a classe C do plano astral. Pense no Tiririca.

 

Um fantasma de respeito recorreria a truques melhores para arrepiar os cabelos dos vivos. Talvez a Wetta Digital (ou aquele maquiador artístico famoso, Rick Baker) tenha uma filial no além, atendendo aos defuntos abastados que podem pagar por “scary looks” mais legais – machados enterrados na testa, faces parcialmente destruídas e com os ossos se projetando da pele, enfim...

 

É como o Carnaval: quem pode torrar R$ 1.500,00 em uma boa fantasia aparece na Globo. Quem não pode se contenta em curtir a folia usando chinelo de dedo e sacolinha do Carrefour na cabeça.

 

* * *

 

Se o além for mesmo como nos filmes, acho que estão faltando, por lá, alguns programas de motivação. Workshops que auxiliem a alma penada a dar um passo além, a progredir no plano não-corpóreo.

 

Que tremendo desperdício de energia passar a eternidade assustando os vivos! Afinal: os vivos já têm muito com que se assustar. As prestações do financiamento, faturas do cartão com mais de quatro dígitos, inspeção veicular, renovação do seguro do carro, a sucessão da Dilma, a décima terceira edição do Big Brother...

 

É infindável e eclético o purgatório que nos rodeia. Neste cenário, quem tem medo de um espectro macilento a nos observar malevolamente do canto da sala?

 

De fato, em certos noites – em momentos críticos do mês –, periga eu convidar o fantasma pra tomar umas e outras por minha conta. Contanto que ele me ouça e não me julgue.

 

Entende..?

 

* * *

 

Fato é: os fantasmas estão perdendo grandes oportunidades, considerando o que podem fazer quando abandonam os limites da carne, quando se divorciam das leis do tempo e do espaço.

 

Por exemplo: o que um fantasma “macho” ganharia assombrando o meu apartamento, quando poderia espiar a Ana Hickmann pelada no chuveiro sem ser processado por assédio? Sem considerar o cenário: há terreiros mais interessantes para “baixar” que o meu humilde cafofo.

 

Certos, mesmo, estão os fantasmas da Inglaterra ou da Irlanda, que levam um vidão digno da Revista “Caras”. Ok, não há castelos para assombrar no Brasil – entretanto, na qualidade de fantasma, eu já me contentaria em assombrar uma suíte do Maksoud Plaza ou um daqueles hotéis chiquérrimos da Amazônia.

 

* * *

 

Quando estiver “do outro lado” (se é que existe um “outro lado”), também questionarei os métodos de comunicação empregados pelas almas penadas para se comunicar conosco. Sou jornalista. Interessam-me essas coisas. Tenho autoridade para garantir que, embora fosse um bom truque em 1820, recorrer a uma tábua Ouija ou a um copo para formar sentenças muito longas é dos métodos mais ineficazes para se fazer entender.

 

Ainda mais hoje em dia, quando estamos na era do “Facebaak” e do Twitter. Até as TVs, agora, se conectam à Internet. Soletrar sentenças muito extensas (por exemplo, “todos nesta sala morrerão, a começar dos mais descrentes!”) é contraproducente e desgastante. E, do ponto de vista da plateia, uma experiência enfadonha.

 

Assombre-me, me assuste...

 

Mas não me faça perder tempo.

 

E “Buuu” pra você também!

 

Escrito por Eduardo Torelli às 00h17
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